Placebo vs Nocebo: como esses efeitos podem ser muito mais efetivos do que imaginamos
Estudos publicados na Science Translational Medicine sugerem que os médicos podem precisar considerar lidar com as crenças dos pacientes sobre a eficácia de qualquer tratamento antes mesmo da aplicação para ter resultados mais positivos.
Dessa forma, seria possível que a utilização do Efeito Placebo seja mais eficaz do que imaginamos?
O que é
O efeito placebo consiste em observar melhorias em pacientes doentes que, sem saber, recebem pílulas falsas de açúcar, farinha ou injeções salinas e confirmam melhora em seu quadro clínico. Os pacientes acreditam que aquela medicação os fará saudáveis e tem um efeito fisiológico real. Não se trata apenas de pacientes que se “sentem” melhores momentaneamente.
O Nocebo
Por outro lado, temos o Efeito Nocebo. Uma vez que pacientes duvidam da efetividade do tratamento prescrito pelo médico, se observa nenhum avanço ou resultado piores do que o quadro inicial.
Comprovação
Para comprovar tal tese, um experimento foi realizado pelo Conselho de Pesquisa Médica e financiadores de pesquisa alemães em 22 voluntários adultos saudáveis, dando-lhes um medicamento opioide e manipulando suas expectativas de alívio da dor que eles podem receber em diferentes pontos.
Os voluntários foram colocados em um scanner de ressonância magnética e um calor foi aplicado à perna em um nível onde começa a doer. Os pacientes deviam defifnir a dor em 70 em uma escala de 1 a 100. Uma linha intravenosa para administração de um potente medicamento opioide para alívio da dor também foi introduzido.
Após um controle inicial, sem o conhecimento dos participantes, a equipe começou a administrar o medicamento para ver quais efeitos haveria na ausência de qualquer expectativa de tratamento. A classificação inicial média da dor caiu de 66 para 55.
Os voluntários foram então informados de que o medicamento começaria a ser administrado, embora nenhuma mudança tenha sido feita e eles continuaram recebendo o opioide na mesma dose. As classificações médias de dor caíram ainda mais para 39.
Por fim, os voluntários foram levados a acreditar que o medicamento havia sido interrompido e advertidos de que poderia haver um possível aumento da dor. Mais uma vez, a droga ainda estava sendo administrada da mesma forma, sem nenhuma alteração. A intensidade da dor aumentou para 64. Ou seja, a dor era tão grande quanto na ausência de qualquer alívio da dor no início do experimento.
Para além de “apenas sentir”
Os pesquisadores usaram imagens do cérebro para confirmar os relatos dos participantes sobre o alívio da dor. As varreduras de ressonância magnética mostraram que as redes de dor do cérebro responderam em diferentes extensões de acordo com as expectativas dos voluntários em cada estágio e combinando com seus relatos de dor.
Isso mostrou que os voluntários realmente experimentaram diferentes níveis de dor quando suas expectativas foram alteradas, embora a administração do alívio da dor permanecesse constante.
Como podemos usar isso a favor da medicina
O Placebo é capaz de aumentar a liberação de neurotransmissores associados à sensação de bem-estar, como a serotonina, noradrenalina e a dopamina. Mais de 50% dos pacientes podem relatar completa melhora após o uso.
Eles podem melhorar o humor, aumentar a capacidade concentração, melhorar a coordenação motora, melhorar a memória e até aliviar sintomas como tremores, quadros de dores, sintomas da menopausa, insônia ou doenças que tenham algum relação com o lado emocional ou psicológico, como ansiedade, pânico e depressão, respondem melhor aos placebos.
É graças ao efeito placebo que muitos tratamentos sem nenhuma comprovação científica conseguem aparentar ter eficácia. Boa parte da chamada medicina alternativa sustenta-se puramente no efeito placebo
Outros casos
Via de regra, os placebos não agem nas doenças graves. Nenhum estudo com placebo conseguiu demonstrar que um paciente conseguiu reduzir o tamanho do seu tumor, nem há histórias de pacientes que curaram o diabetes, recuperaram a visão ou voltaram a andar apenas utilizando placebo. A sua eficácia em doenças mais graves, como quadros avançados de câncer, infarto do miocárdio ou de lesões da coluna medular é muitíssimo baixa.
O grande problema é que nem sempre a percepção de melhora do paciente realmente se traduz em uma melhora real. Essa situação foi bem descrita em um estudo publicado na revista New England Journal of Medicine, em 2011, com pacientes portadores de asma. Neste estudo, os pesquisadores compararam os resultados de 4 tipos de estratégias terapêuticas diferentes:
1. Tratamento com inaladores contendo broncodilatadores (tratamento comprovado para asma).
2. Tratamento com inaladores contendo placebo
3. Acupuntura falsa.
4. Apenas observação, sem administração de nenhum tipo de tratamento
Os resultados do estudo foram divididos em duas partes, uma subjetiva e outra objetiva. Na parte subjetiva, os pacientes responderam a um questionário por escrito dando uma nota de 0 a 10 ao grau de melhora da sensação de falta de ar. Na parte objetiva, os pacientes foram submetidos a testes de função respiratória, para que o grau de melhora na ventilação pulmonar fosse adequadamente avaliado.
As conclusões foram bem interessantes: na avaliação subjetiva, os dois tratamentos com placebo e o tratamento com medicação real tiveram desempenho praticamente igual, com cerca de 50% de melhora na sensação de falta de ar. Já a nota dos pacientes que não receberam tratamento algum melhorou em apenas 20%. Saber que não recebeu tratamento foi pior do que achar que estava sendo tratado, mesmo que o tratamento fosse de mentira.
Já nos testes de função pulmonar, a história foi completamente diferente. Os broncodilatadores mostraram uma melhora de quase 80% no fluxo de ar nos pulmões, enquanto a melhora do placebo e nos pacientes apenas observados ficou ao redor de 20%.
Resultados do experimento
Esse estudo nos mostra que apesar do placebo aparentemente ter sido tão eficaz quanto os broncodilatadores, na verdade isso foi apenas uma ilusão. A curto prazo e em alguns casos, o placebo pode até parecer conseguir competir com tratamentos reais, porém, a tendência é que o efeito placebo vá perdendo eficácia com o tempo.
Conclusões
O placebo possui um papel importante no tratamento de algumas doenças, principalmente as de origem psicológicas, porque, embora não provoque qualquer alteração no organismo, o efeito curativo pode ser determinado pela crença do paciente de que o ajuda, podendo melhorar os sintomas e aumentar o sucesso do tratamento. Vemos que um fator determinante para o sucesso no tratamento do paciente é a forma como ele é atendido pelo profissional de saúde e qual expectativa é passada a ele. O Placebo vem sendo estudado mais a fundo, para que novas descobertas possam ser feitas e integradas ao tratamento de diversas doenças antes irreparáveis.
Por razões éticas e legais, o placebo é usado apenas nos casos em que não existe uma terapia padrão eficaz comprovada para a doença ou situação clínica em estudo que possa ser usada como comparação, como foi o caso das vacinas contra a Covid-19. Porém o uso do placebo ainda é restrito. Normalmente para se realizar um estudo com essa substância, uma justificativa convincente sempre deverá ser elaborada e aprovada pelos Comitês de Ética em Pesquisa.
Fontes:
https://www.mdsaude.com/farmacologia/efeito-placebo/#Doencas_graves
https://www.sciencedaily.com/releases/2011/02/110226212356.htm#:~:text=The%20study%20of%20the%20placebo,the%20best%20for%20that%20patient.
https://cemecpesquisaclinica.com.br/por-que-o-placebo-e-utilizado-nos-estudos-clinicos/#:~:text=Por%20raz%C3%B5es%20%C3%A9ticas%20e%20legais,vacinas%20contra%20a%20Covid%2D19.
https://cdn0.br.psicologia-online.com/pt/posts/1/6/9/o_que_e_efeito_placebo_e_como_ele_funciona_961_orig.jpg
https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/199511/001101863.pdf?sequence=1&isAllowed=y

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